terça-feira, 31 de março de 2015

A autonomia da Joana


Um dia, estava eu no infantário, quando se ouve alguém a gritar:

   -Socorro! Estou preso!

   Lá vai uma carrada de gente e faz um círculo à volta: funcionários, amigos, até pessoas desconhecidas, todos a tentar ajudar a pobre rapariga, com um pé, sabe-se lá como, enfiado numa tampa de esgoto. Sempre a mesma coisa: alguém pedia ajuda e toda a gente ajudava. As pessoas tinham de começar a arranjar-se sozinhas, sem ajuda. Assim, quando fossem maiores, já estavam bem treinados a fazer coisas dessas; a desenvencilhar-se sozinhos.

   Mas não, socorro aqui, socorro ali; «isto já parece a quinta do tio Manel», dizia eu. Ninguém ouvia.

   Até que, um dia, estava eu feliz no recreio, a brincar num daqueles castelos, com escorregas e sítios de trepar, quando algo se espeta na minha mão. «Que estranho», pensei para mim. «Esta agora, tenho uma farpa!». Era o momento ótimo para mostrar o que conseguia fazer sozinha: comecei a tentar tirar a farpa com as minhas unhas, mas nada. De tanto tentar, esqueci-me que estava naquela estrutura grande a que chamo castelo, e, caí.

   A queda foi rápida, nem tive tempo de me agarrar em algum sítio. Doía-me tudo, da cabeça às pernas e não me conseguia mexer.

   E foi assim, aventurei-me sozinha e acabei no hospital com um braço partido. Desde aí nunca mais subi a coisas altas com uma ferida.

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