Um dia, estava eu no
infantário, quando se ouve alguém a gritar:
-Socorro!
Estou preso!
Lá vai
uma carrada de gente e faz um círculo à volta: funcionários, amigos, até
pessoas desconhecidas, todos a tentar ajudar a pobre rapariga, com um pé,
sabe-se lá como, enfiado numa tampa de esgoto. Sempre a mesma coisa: alguém
pedia ajuda e toda a gente ajudava. As pessoas tinham de começar a arranjar-se
sozinhas, sem ajuda. Assim, quando fossem maiores, já estavam bem treinados a
fazer coisas dessas; a desenvencilhar-se sozinhos.
Mas
não, socorro aqui, socorro ali; «isto já parece a quinta do tio Manel», dizia
eu. Ninguém ouvia.
Até que, um dia, estava eu feliz no recreio, a
brincar num daqueles castelos, com escorregas e sítios de trepar, quando algo
se espeta na minha mão. «Que estranho», pensei para mim. «Esta agora, tenho uma
farpa!». Era o momento ótimo para mostrar o que conseguia fazer sozinha:
comecei a tentar tirar a farpa com as minhas unhas, mas nada. De tanto tentar,
esqueci-me que estava naquela estrutura grande a que chamo castelo, e, caí.
A queda foi rápida, nem tive tempo de me
agarrar em algum sítio. Doía-me tudo, da cabeça às pernas e não me conseguia
mexer.
E foi assim, aventurei-me sozinha e acabei no
hospital com um braço partido. Desde aí nunca mais subi a coisas altas com uma
ferida.
